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2017-08-18

ASAS BROTAM DE MEUS DEDOS - Osmar Pisani

Aqui, asas brotam de meus dedos
e se elevam como um sopro
na branca paisagem de teus sonhos.

Vês as figuras transformadas em papel?

Outros seres passam em procissão
e a ideia é um lago somente,
súbita estrela se apoia em tua mão.

Tua sombra se ajusta à órbita da noite
e cobre o abismo dos homens sem memória.

Osmar Pisani nasceu em Gaspar, Santa Catarina, em 18 de agosto de 1936; faleceu em 7 de março de 2007.

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2017-08-17

...E nos 30 anos do falecimento de Carlos Drummond de Andrade: Canção Final



Oh! se te amei, e quanto!
Mas não foi tanto assim.
Até os deuses claudicam
em nugas de aritmética.
Meço o passado com régua
de exagerar as distâncias.
Tudo tão triste, e o mais triste
é não ter tristeza alguma.
É não venerar os códigos
de acasalar e sofrer.
É viver tempo de sobra
sem que me sobre miragem.
Agora vou-me. Ou me vão?
Ou é vão ir ou não ir?
Oh! se te amei, e quanto,
quer dizer, nem tanto assim.

Carlos Drummond de Andrade (Itabira, Minas Gerais, Brasil, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987)

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Quanto, quanto me queres? - perguntaste - António Botto (na efeméride dos 120 anos do nascimento)

Quanto, quanto me queres? - perguntaste
Numa voz de lamento diluída;
E quando nos meus olhos demoraste
A luz dos teus senti a luz da vida.

Nas tuas mãos as minhas apertaste;
Lá fora da luz do Sol já combalida
Era um sorriso aberto num contraste
Com a sombra da posse proibida...

Beijámo-nos, então, a latejar
No infinito e pálido vaivém
Dos corpos que se entregam sem pensar...

Não perguntes, não sei - não sei dizer:
Um grande amor só se avalia bem
Depois de se perder.


in Poemas de Amor, Antologia de poesia portuguesa, Organização e prefácio de Inês Pedrosa, Publicações Dom Quixote

António Tomaz Botto nasceu a 17 de agosto de 1897, em Casal da Concavada, Abrantes e faleceu no Rio de Janeiro a 17 de março de 1959.

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2017-08-16

Na praia lá da Boa Nova, um dia - António Nobre (na passagem dos 150 anos do seu nascimento)


Na praia lá da Boa Nova, um dia,
Edifiquei (foi esse o grande mal)
Alto Castelo, o que é a fantasia,
Todo de lápis-lazúli e coral!

Naquelas redondezas não havia
Quem se gabasse dum domínio igual:
Oh, Castelo tão alto! parecia
O território dum senhor feudal!

Um dia (não sei quando, nem sei donde)
Um vento seco de deserto e spleen
Deitou por terra, ao pó que tudo esconde,

O meu condado, o meu condado, sim!
Porque eu já fui um poderoso Conde,
Naquela idade em que se é conde assim...


António Pereira Nobre (nasceu no Porto a 16 de agosto de 1867 e foi vítima de tuberculose pulmonar, na Foz do Douro, Porto a 18 de março de 1900).

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2017-08-14

Canção Vermelha - Jaime Cortesão


Mulher vestida de vermelhoMulher de vermelho


-"Amo-te!" E cerras os dentes
-"Amo-te!" E fico enleado
Como se fora assaltado
Numa selva por serpentes.

Nem um fauno alucinado
Tem ímpetos mais ardentes;
Nem as sibilas dementes
Este delírio sagrado.

Meus lábios, que a febre inflama,
E as faces, estão em chama
Como bocas de fornalha.

E ardem-te os olhos surpresos;
São dois archotes acesos
Numa noite de batalha!

Extraído de "Cem Sonetos Portugueses", selecção organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar

Jaime Zuzarte Cortesão (n. Ançã, Cantanhede, 29 de abril de 1884 —m. Lisboa, 14 de agosto de 1960)

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