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2017-10-11

Amar ou Odiar - Fausto Guedes Teixeira

Amar ou odiar: ou tudo ou nada
O meio termo é que não pode ser
A alma tem de estar sobressaltada
Para o nosso barro se sentir viver

Não é uma cruz a que não for pesada
Metade de um prazer, não é um prazer!
E quem quiser a vida sossegada
Fuja da vida e deixe-se morrer!

Vive-se tanto mais quanto se sente
Todo o valor está no que sofremos
Que nenhum homem seja indiferente!

Amemos muito como odiamos já!
A verdade está sempre nos extremos
Pois é no sentimento que ela está

Fausto Guedes Teixeira (nasceu na freguesia de Almacave, em Lamego, em 11 de Outubro de 1871 — morreu em Lamego, 13 de julho de 1940)

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2017-10-10

SONHOS DE SOL - Antônio Tavernard


Nesta manhã tão clara é sacrilégio
o se pensar na morte. No entanto
é no que penso úmidos de pranto
os meus olhos cansados.

Sortilégio de luz pela cidade...
As casas todas, humildes e branquinhas
lembram gráceis e tímidas mocinhas
no dia de suas bodas.

Morrer assim numa manhã tão linda,
risonha, rosicler,
não é morrer... é adormecer ainda
na doce tepidez de um seio de mulher!

Não é morrer... é só fechar os olhos
Para melhor sentir o cheiro do jasmim
Escondido da renda nos refolhos!...
Ah! Quem me dera que eu morresse assim.

Antônio de Nazaré Frazão Tavernard nasceu na Vila São João de Pinheiro, atual Icoaraci, em Belém, Pará, a 10 de outubro de 1908 — m. Belém a 26 de maio de 1936

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2017-10-03

Zelos - Zeferino Brazil

Lírios rosa, Eliomar Ribeiro

De leve, beijo as suas mãos pequenas,
alvas, de neve, e, logo, um doce, um breve,
fino rubor lhe tinge a face, apenas
de leve beijo as suas mãos de neve.

Ela vive entre lírios e açucenas
e o vento a beija, e, como o vento, deve
ser o meu beijo em suas mãos serenas,
— tão leve o beijo, como o vento é leve...

Que essa divina flor, que é tão suave,
ama o que é leve, como um leve adejo
de vento ou como um garganteio de ave.

E já me basta, para meu tormento,
saber que o vento a beija, e que o meu beijo
nunca será tão leve como o vento...

Zeferino António de Sousa Brazil (n. em Taquari, Rio Grande do Sul, Brasil a 24 de Abril 1870, m. em 3 de Outubro de 1942 em Porto Alegre, Rio Grande do Sul)

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2017-10-02

Lembrando José Cardoso Pires


«Mas a meio caminho voltou para trás, direita ao mar. Paulo ficou de pé no areal, a vê-la correr: primeiro chapinhando na escuma rasa e depois contra as ondas, às arrancadas, saltando e sacu­dindo os braços, como se o corpo, toda ela, risse.
Uma vaga mais forte desfez-se ao correr da praia, cobriu na areia os sinais das aves marinhas, arrastou alforrecas abandonadas pela maré. Eram muitas, tantas como Paulo não vira até então, espapaçadas e sem vida ao longo do areal. O vento áspero curtira-lhes os corpos, passara sobre elas, carregado de areia e de salitre, varrendo a costa contra as dunas, sem deixar por ali vestígios de pegada ou restos de alga seca que lhe resistissem.»

«Marcaste o despertador»
«Hã?»
«O despertador, Quim. Para que horas o puseste?»
«...E tudo à volta era névoa, fumo do mar rolando ao lume das águas e depois invadindo mansamente a costa deserta. Havia esse sudário fresco, quase matinal, embora, cravado no céu verde-ácido, despontasse já o brilho frio da primeira estrela do anoitecer...»
«Desculpa, mas não estou descansada. Importas-te de me passar o despertador?»
«O despertador?»
«Sim, o despertador. Com certeza que não queres que eu me levante para o ir buscar. És de força, caramba.»
«Pronto. Estás satisfeita?»
«Obrigada. Agora lê à vontade, que não te torno a incomodar. Eu não dizia? Afinal não lhe tinhas dado corda... Que horas são no teu relógio? Deixa, não faz mal. Eu regulo-o pelo meu.»

«- Mais um mergulho - pedia a rapariga. A dois passos dele sorria-lhe e puxava-o pelo braço; - Só mais um, Paulo. Não imaginas como a água está estupenda. Palavra, amor. Estupenda, estupenda, estupenda. Uma alegria tranquila iluminava-lhe o corpo. A neblina bailava em torno dela, mas era como se a não tocasse. Bem ao contrário: era como se, com a sua frescura velada, apenas despertasse a morna suavidade que se libertava da pele da rapariga. - Não, agora já começa a arrefecer - disse Paulo. - Vamo-nos vestir? Estavam de mãos dadas, vizinhos do mar e, na verdade, quase sem o verem. Havia a memória das águas na pele cintilante da jovem ou no eco discreto das ondas através da névoa; ou ainda no rastro de uma vaga mais forte que se prolongava, terra adentro, e vinha morrer aos pés deles num distante fio de espuma. E isso era o mar, todo o oceano. Mar só presença. Traço de água a brilhar por instantes num rasgão do nevoeiro. Paulo apertou mansamente a mão da companheira; - Embora? - Embora - respondeu ela. E os dois, numa arrancada, correram pelo areal, saltando poças de água, alforrecas mortas e tudo o mais, até tombarem de cansaço.» (...)

in Uma simples flor nos teus cabelos claros - Jogos de Azar - José Cardoso Pires

José Cardoso Pires, nasceu em São João do Peso, Vila de Rei, distrito de Castelo Branco a 2 de Outubro de 1925 e faleceu está para fazer dez anos, a 26 de Outubro de 1998.

Passou grande parte da sua infância e adolescência na capital, onde frequentou o Liceu Camões e foi aluno de Rómulo de Carvalho. Mais tarde ingressou no curso de Matemáticas Superiores na Faculdade de Ciências de Lisboa, que não chegou a concluir.

É um dos grandes escritores portugueses do século XX. «Não se identifica com nenhum grupo, nem se fixa em nenhum género literário, apesar de ser considerado sobretudo como um romancista. A característica mais evidente da sua não muito vasta obra (são ao todo dezoito os seus livros publicados em quase cinquenta anos de vida literária) é o facto de cada livro seu inaugurar e completar um ciclo de criação literária»*. Entre outros prémios foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa, 1997 e no ano seguinte o Grande Prémio da Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores.

Obras: Os Caminheiros e Outros Contos (1949), Histórias de Amor (1952), O Anjo Ancorado (romance, 1958), O Render dos Heróis (teatro, 1960), Cartilha do Marialva (ensaios, 1960), Jogos de Azar (contos, 1963), O Hóspede de Job (romance, 1963), O Delfim (romance, 1968), Dinossauro Excelentíssimo (fábula, 1972), E Agora, José? (ensaios, 1977), O Burro-em-Pé (contos, 1979), Corpo-Delito. Na Sala de Espelhos (teatro, 1980), Balada da Praia dos Cães (romance, 1982), Alexandra Alpha (romance, 1987), A República dos Corvos (contos, 1988), A Cavalo no Diabo (crónicas, 1994), De Profundis, Valsa Lenta (1997) e Lisboa, Livro de Bordo (1997).

* escreveu Eunice Cabral
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2017-09-30

DO BARCO - Paulo Bomfim



No barco de um soneto eu te procuro
Por praias e avatares tripulantes,
Deixo de mim nos litorais amantes,
Contrabandeando sóis no porto escuro.

E dos remos sonoros que seguro,
Faço a canção das ilhas mais distantes,
E num ritual de ventos navegantes
Clamo por ti em tempos de futuro.

Sinto que a vida passa e deito sondas
Que vão medindo em mim as profundezas
Dos céus que fui tragando em minhas ondas;

E na procura desse desatino,
Vou gritando ao sabor das correntezas:
− Meu barco, meu soneto, meu destino!

Paulo Lébeis Bomfim (n. em São Paulo, SP, Brasil, 30 de setembro de 1926)

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